sábado, 11 de outubro de 2025

DEPOIS DE PERDER UMA FONTE DE ARRECADAÇÃO COM A DERROTA DA MEDIDA PROVISÓRIA DAS BET's GOVERNO TENTA OUTRO CAMINHO PARA TAXAR EMPRESAS DE APOSTAS ONLINE

Após derrubada de MP, PT propõe dobrar taxação das "bets"

Projeto da bancada petista na Câmara eleva de 12% para 24% o repasse público das "bets" e destina metade dos recursos à saúde, em resposta à derrota do governo na quarta-feira

Um dia depois da derrota do governo Lula na tentativa de aumentar a taxação das apostas online por medida provisória, a bancada do PT na Câmara apresentou um projeto que retoma a proposta, mas com foco social mais definido. O projeto de lei 5.076/2025, protocolado nessa quinta-feira (9), dobra a fatia da arrecadação das apostas esportivas online ("bets") destinada ao poder público, de 12% para 24%, e reserva metade desse valor para ações na área da saúde.

A proposta foi apresentada um dia depois de o governo sofrer uma derrota na Câmara, com a perda de validade da MP 1.303/2025, que previa aumento de tributos sobre apostas, bancos e agronegócio. A medida, que poderia render R$ 46 bilhões até 2026, perdeu a validade na última quarta-feira (8), ao ser retirada de pauta após impasse com o centrão e a base aliada. O Plenário não chegou a examinar o mérito da MP.

Com a queda da MP, o governo perdeu uma parte importante da arrecadação prevista para cumprir a meta de déficit zero em 2025. O texto surge como alternativa legislativa, com apoio de mais de 60 deputados do PT, para retomar a tributação das "bets" e vincular os recursos a áreas sociais. A proposta, encabeçada pelo líder Lindbergh Farias (RJ), é assinada por mais de 60 deputados do PT.

O projeto altera a Lei 13.756/2018, que trata do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e da distribuição dos recursos das loterias e apostas de quota fixa "As apostas on-line viraram um problema de saúde pública. É justo que contribuam mais para o país financiar o SUS e outras políticas sociais", alegam os petistas na justificativa da proposta.

O que o projeto muda

O PL 5.076/2025 altera a forma de distribuição do dinheiro arrecadado com as apostas de quota fixa:

76% ficarão com o operador das apostas (custos e manutenção);

12% irão para a seguridade social, com prioridade para ações na área da saúde;

12% restantes continuarão sendo divididos entre segurança pública, esporte, cultura e assistência social, como já previsto na legislação.

Na prática, o texto dobra a fatia pública da arrecadação, passando de 12% para 24% o total repassado ao poder público. Metade desse valor (12%) será reservada exclusivamente à saúde, o que inclui prevenção e tratamento de ludopatia (vício em jogos), além de outras ações do SUS. "Queremos transformar o problema das apostas em oportunidade de investimento em saúde e segurança pública", afirma o deputado. O aumento proposto é superior ao previsto na medida provisória, que chegava a 18% (6% para a saúde e 12% para outras destinações).

As novas regras entrariam em vigor quatro meses após a publicação da lei, para permitir adaptação das empresas.

Boom das apostas e alerta sobre o vício

Na justificativa, o PT cita o crescimento explosivo das plataformas de apostas on-line e seus efeitos sociais. Segundo a empresa Comscore, o Brasil foi o terceiro país do mundo em volume de apostas em 2024, atrás apenas dos Estados Unidos e da Inglaterra, com 2 bilhões de minutos mensais de consumo.

O Banco Central estima que 24 milhões de brasileiros fizeram transferências para sites de apostas entre janeiro e setembro de 2024.

O texto também alerta para o avanço da ludopatia, o vício em apostas, e seu impacto sobre as famílias: "O que começa como brincadeira pode levar ao vício. O Brasil já tem mais de 2 milhões de pessoas viciadas em jogos, e os atendimentos na rede pública cresceram 300% entre 2022 e 2024", diz a justificativa do projeto.

Um estudo da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo reforça o problema:

63% dos apostadores comprometeram parte da renda com as "bets";

19% deixaram de fazer compras no mercado;

11% cortaram gastos com saúde e medicamentos.

Imposto maior, mas ainda abaixo da Europa

Atualmente, a carga tributária sobre as apostas on-line no Brasil gira em torno de 27% do lucro bruto das operadoras (GGR). Com o novo formato de destinação, o peso efetivo sobre o setor deve subir para algo próximo de 35%, acima do previsto na MP derrotada, que mantinha o patamar de 27%.

Mesmo com o aumento, a alíquota brasileira continuaria abaixo da média internacional:

França: 55%

Alemanha: 48%

Recursos para saúde e segurança

Além de ampliar o repasse à seguridade social, o texto mantém recursos para o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP), que financia policiamento e programas de prevenção à violência.

O projeto aguarda despacho da Mesa Diretora da Câmara. A previsão é que seja analisado pelas comissões de Finanças e Tributação, Seguridade Social e Família e Constituição e Justiça (CCJ) antes de seguir ao plenário.

Resumo: o que propõe o PL 5.076/2025

Dobra a fatia pública da arrecadação das apostas: de 12% para 24%;

Destina 12% à seguridade social, com foco na saúde e combate à ludopatia;

Mantém 12% para segurança pública, esporte e cultura;

Eleva a carga efetiva das "bets" para cerca de 35%;

Mantém alíquota abaixo da média internacional;

Prevê vigência em quatro meses após sanção.

Fonte: Congresso em Foco



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