Janeiro de 2027 marca o fim de 60 anos de hegemonia das oligarquias no Rio Grande do Norte
Pela primeira vez em mais de seis décadas, o tabuleiro político potiguar vira a página sem nenhum representante das famílias Alves ou Maia no exercício de mandatos eletivos, redesenhando o mapa do poder no estado.
O calendário político do Rio Grande do Norte registra um marco histórico: a partir de janeiro de 2027, encerrar-se-á oficialmente um ciclo que moldou os destinos do estado por mais de 60 anos. Os grupos políticos tradicionais, que durante décadas se revezaram no poder entre disputas ferrenhas e alianças pragmáticas, assistem ao seu ocaso definitivo nas urnas. O sobrenome como passaporte eleitoral perdeu a validade.
O desmonte das antigas estruturas não aconteceu da noite para o dia, mas teve em 2022 o seu primeiro grande abalo sísmico e, nas eleições de 2026, o seu golpe de misericórdia.
Pelo lado dos Maia, José Agripino personificou a longevidade de uma era. Embora tenha nascido politicamente "biônico" — nomeado prefeito de Natal durante o regime militar —, construiu uma trajetória robusta no voto direto: foi duas vezes governador do Estado e exerceu mandatos consecutivos no Senado da República. Contudo, já em 2022, sentiu o peso dos novos tempos ao amargar a derrota na disputa por uma cadeira de deputado federal, recolhendo-se aos bastidores partidários.
O naufrágio do "Aluizismo" e o encolhimento do MDB
Se os Maia saíram de cena, o clã Alves enfrentou um desfecho ainda mais dramático. Henrique Eduardo Alves, figura central de Brasília, ex-ministro de Estado e ex-presidente da Câmara dos Deputados, viu seus 11 mandatos consecutivos evaporarem no pleito de 2022, quando obteve pouco mais de 11 mil votos para deputado federal — um epílogo melancólico para quem já carregava no currículo duas derrotas históricas para a Prefeitura de Natal.
O mesmo vento varreu Garibaldi Alves Filho. Herdeiro direto do carisma do "aluizismo", duas vezes governador, senador e ex-presidente do Congresso Nacional, Garibaldi também ficou pelo caminho ao tentar uma vaga na Câmara Federal em 2022. A esperança de sobrevida da família repousava sobre seu filho, o atual vice-governador Walter Alves.
No entanto, as urnas de 2026 foram implacáveis: Walter sofreu uma derrota humilhante na tentativa de retornar à Assembleia Legislativa como deputado estadual. Com ele, afundou a legenda que outrora ditava as regras do jogo. O velho MDB de tantas guerras — partido que resistiu à ditadura de 1964 e foi a espinha dorsal da política potiguar — minguou a ponto de conquistar apenas uma das 24 cadeiras do Legislativo estadual.
Ainda mais emblemática é a situação de Carlos Eduardo Alves. Órfão político das lideranças de Agnelo Alves e Wilma de Faria, o ex-prefeito da capital sequer conseguiu reunir condições políticas e partidárias para entrar em campo em 2026. Entre anúncios precipitados e desistências atabalhoadas para diferentes cargos, virou refém da própria indecisão. O impiedoso folclore político potiguar tratou de batizá-lo com a alcunha de "Carlos Quatro Quedas", em referência à sequência de quatro reveses eleitorais consecutivos que o empurraram para fora do jogo.
O inverno dos Rosado e o drama dos satélites
No Oeste potiguar, a tradicional oligarquia Rosado também enfrenta seu deserto de mandatos. A ex-governadora e ex-prefeita de Mossoró, Rosalba Ciarlini, hiberna em um profundo ostracismo político; em 2026, não reuniu forças sequer para colocar o pescoço fora do casco e testar seu nome.
O único suspiro do clã veio com Larissa Rosado, que, curiosamente, havia perdido a última eleição para vereadora em sua terra natal, Mossoró, mas acabou alçada ao posto de vice-governadora na chapa vitoriosa deste ano. Nos bastidores, porém, a leitura é fria: trata-se de um fôlego curto. A tendência é que seja rapidamente escanteada na estrutura de governo, afinal, como diz a velha máxima repetida nos corredores políticos, "o PT é como pé de mangueira: nada floresce debaixo de sua sombra".
O crepúsculo das velhas raposas arrastou consigo figuras que gravitaram em torno desses grupos por décadas. O ex-governador Robinson Faria despede-se da vida pública após uma carreira que incluiu a presidência da Assembleia, a Câmara Federal e o Executivo estadual. Sua derrota em 2026 teve contornos de tragédia grega: perdeu a eleição por míseros 32 votos. Nos bastidores, Robinson atribui o revés de forma raivosa à traição de seu antigo pupilo predileto, o ex-prefeito de Ceará-Mirim, Júlio César.
Ao lado de Robinson, dezenas de outros políticos "satélites" das antigas oligarquias dão adeus à cena pública — alguns aposentados compulsoriamente pelo voto popular, outros que sequer desembainharam suas espadas, preferindo a desistência prévia à humilhação das urnas.
O mar revolto do novo ciclo
A sabedoria popular do sertão e do agreste costuma ser certeira ao resumir a essência do poder: voto é como santidade, só se acredita na metade da metade; e político é como remédio de prateleira, todo ele tem prazo de validade.
Para a velha guarda do Rio Grande do Norte, o prazo venceu em definitivo. Fecha-se um ciclo secular e abre-se uma página em branco a partir de 2027. Contudo, a queda dos antigos titãs não significa calmaria para os novos ocupantes do poder.
Resta saber quem, dentre os que chegam agora impulsionados pela renovação, terá fôlego para sobreviver no mar revolto da política contemporânea — um oceano cheio de monstros devoradores, onde a fidelidade eleitoral não cria raízes, o ambiente não plasma estabilidade e a única certeza absoluta continua sendo o imponderável.
Fonte: Ricardo Sobral, advogado