domingo, 11 de outubro de 2026

IMPERDÍVEL: COLUNISTA DO JORNAL ZERO HORA FALA SOBRE DEMOCRACIA ELITOR E ELEIÇÕES

A Democracia da população

Eu aceito ser governado por um idiota, por exemplo. A democracia me obriga a suportar esse risco. Também aceito perder para quem eu acho pior.

Aceito quatro anos de decisões que me revoltam. Aceito ver milhões de brasileiros comemorando exatamente o que eu lamento. Faz parte.

O que eu não aceito é correr o risco de, junto com a derrota, perder o direito de tentar vencer na próxima. Eu preciso ter certeza de que vai ter uma próxima. Não posso abrir mão disso.

E esse é o principal motivo que me fez votar no primeiro turno e vai me fazer votar de novo num candidato que, sim, eu considero ruim. Não vou fingir que os defeitos deles são pequenos porque o outro é pior. Mas tem defeitos que a democracia consegue enfrentar.

Demagogia, incompetência, corrupção, irresponsabilidade. E existem outros defeitos que destroem as condições que tornam a própria democracia possível. Essa é a diferença central.

Não saber perder é o pior dos defeitos. Quem aceita governar uma democracia, aceita ser mandado embora por ela. Não interessa se o sujeito acha que é ungido por Deus, se milhões de bajuladores o aplaudem, se o outro grupo é um desastre.

Não importa. O presidente recebe a chave de uma casa que não é dele. Se não foi reeleito, devolve a chave a Deus.

E outra, a maioria tem o direito de governar, não tem o direito de decidir quem merece direitos.

Qual família é família de verdade? Que tipo de amor é digno de respeito? Qual pronome uma pessoa deve usar? Que religião é a mais correta? Aliás, um presidente pode entregar a própria vida a nosso Senhor Jesus Cristo? Claro, é uma escolha dele, mas não pode entregar ao Brasil, que talvez não seja a escolha de 200 milhões. A maioria governa o país, não governa a vida dos outros.

E mesmo com maioria, o presidente não tem que ser forte demais. Ao contrário, tem que ser fraco bastante para não conseguir fazer tudo o que quer. E para isso existem congresso, justiça, imprensa, oposição, podem ser imperfeitos, asquerosos em alguns momentos, mas são a garantia de que o presidente não pode tudo.

O presidente é livre para discordar, para recorrer, mas não pode arrancar desses contrapesos o poder de dizer não para ele. Sobre o meu candidato, os defeitos dele vão continuar lá se ele vencer. E olha, eu não vou me calar sobre eles.

Acho ridículo esse contrato de lealdade entre quem dá o voto e quem recebe o voto. Não tem cabimento passar quatro anos inventando cambalhota retórica para defender todo tipo de desatino de um cara que, na prática, trabalha para mim. É o contrário.

Se eu ajudei a eleger o sujeito, a dívida é dele comigo. A minha dívida é com a próxima eleição.

Opinião Paulo Germano - Zero Hora

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