A nova indústria da moda com identidade potiguar
A indústria da moda potiguar atravessa um novo ciclo. Depois da era do algodão e da confecção em série, o setor volta a se apoiar num recurso que sempre teve: a identidade cultural do Rio Grande do Norte. Bordado, crochê e saber artesanal se conectam à produção industrial e formam um arranjo produtivo mais amplo e mais reconhecido no país.
O Ginga Moda, promovido por Sebrae, SEDEC e Senai, mostrou a dimensão desse arranjo. Em dois dias, o evento movimentou R$ 1,5 milhão em negócios diretos e projetou mais R$ 4 milhões em negociações futuras. A cadeia da moda no estado reúne cerca de 2.500 empresas e sustenta mais de 20 mil famílias.
A base desse arranjo vem de décadas de experiência industrial. O Grupo Guararapes, com mais de 30 mil colaboradores em todo Brasil e atuação no varejo pela Riachuelo, ajudou a formar um encadeamento produtivo que hoje sustenta o Pró-Sertão: mais de 150 oficinas de costura atendem clientes em todo o país, das quais 100 são parceiras da Guararapes. Essas oficinas são acompanhadas pelo Sebrae, pelo Instituto Riachuelo e certificadas pela ABVTEX, o que garante padrões de qualidade e de responsabilidade social na produção.
O encadeamento abriu caminho para novos modelos de negócio. Mais de dez marcas próprias nasceram dessa experiência acumulada, ao lado do crescimento do private label — modelo em que empresas locais fabricam produtos para marcas de outras regiões do país. A camisaria potiguar, reconhecida pela qualidade técnica, deixou de prestar serviço apenas para terceiros e passou a gerar negócios próprios.
A moda autoral também avançou. O projeto Natal Pensando Moda reuniu estilistas e ajudou a consolidar coleções com identidade técnica e criativa própria. O Polo Boneleiro soma mais de 200 empresas e conta com sindicato atuante no setor. Moda infantil, moda praia e acessórios, as chamadas joias contemporâneas, completam o conjunto, hoje com presença crescente em vitrines nacionais olhando para o mercado internacional.
O diferencial do modelo potiguar está na integração com a cultura. Em Timbaúba dos Batistas, cerca de 700 artesãs participam da cadeia, fortalecidas pelo projeto de Indicação Geográfica do Bordado, que reconhece e protege a tradição centenária. Bordado e crochê, antes tratados como trabalho doméstico, agregam valor às coleções e diferenciam marcas potiguares no mercado — presentes, inclusive, no uniforme da delegação brasileira nas Olimpíadas de Paris.
A moda potiguar mostra que cultura e indústria estão no mesmo lado. Cada bordado, cada oficina, cada marca própria reforça a mesma trama: tradição que vira renda, identidade que vira mercado.
Fonte: Tribuna do Norte

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