segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

PAPANGUS: A MAGIA E A TRADIÇÃO DOS ANTIGOS CARNAVAIS VAI DESAPARECENDO

O triste fim dos papangus

Foi nos becos da Redinha, humildes e sem nome, que vi passar os últimos papangus. Eram personagens líricos, como os papangus da minha infância. Andavam só com os olhos do lado de fora, como se perscrutassem a vida simples dos moradores de lá. Feios, mas de uma feiura ingênua e doce que parecia guardar uma tristeza prisioneira do silêncio. Escondida neles mesmos, e que seguiam seus passos pelas ruas pobres da vila, eles sozinhos, sem palavras e sem gestos, numa alegoria de espantos.

Nas tardes de carnaval, e para que a vida não fosse monótona diante da canção triste do mar, desfilava sempre uma tribo de índios. Bastava um pequeno ajuntado para vê-los passar, e o cacique, chefe de todos, avisava que era hora de matar o caçador. Com macacão surrado, chapéu imitando aqueles dos filmes de Tarzan, com sua espingarda feita de madeira e que ele apontava para os índios numa resistência inútil para cair, sem vida, no chão da rua, sob o olhar de compaixão de todos nós.

Sempre achei que os meninos eram sinceros e sentiam pena do caçador. Uma tristeza parecida com a saudade do cronista. Mas, a minha era uma saudade velha que vinha da infância, quando o caçador, crivado de flechadas, caía manchado de sangue no peito, bem do lado do coração. Então era justo negar a tristeza diante da morte do caçador, naquela hora trágica? Bastaria um olhar para notar que tudo não passava de um faz-de-conta, mas, e a alegria, quando o feiticeiro ressuscitava o caçador?

Dizem que são falsas as tribos de índio do carnaval. Nem tanto. A própria vida é assim, entre o real e o irreal. A realidade cansa. O que tem de falso e errado um feiticeiro soprar aquela fumaça de suas ervas mágicas para fazer o caçador voltar a viver? Quem não morre e não ressuscita todos os dias, entre as tristezas e as alegrias da vida? Quem, nesse mundo de Deus e dos feiticeiros que andam por aí, não se deixa encantar com as magias que fogem do mundo real e assaltam nossas certezas?

E depois – notaram que nas crônicas tristes tem sempre um depois? – nunca esqueci da cena que vi naquela tarde que os parnasianos diriam fagueiras, numa ruazinha pobre da Redinha. Depois de ressuscitar, a tribo retomou sua caminhada, mas o caçador, cansado de morrer tantas vezes numa única tarde, largou o corpo no batente de uma casa. Acendeu um cigarro, puxou um trago comprido, e ficou ali. O olhar era vago, como se procurasse a vida, se ainda seria preciso morrer várias vezes.

Hoje, e tristemente, o populismo matou o carnaval de rua que era lírico e humano. A força do poder público substituiu a festa pagã e docemente pecadora pelo espetáculo. Nem tem consciência de que o lazer pressupõe presença ativa, a participação coletiva, anônima e popular. O show substituiu o lazer como algo contemplativo, um entretenimento. Nem notam que a multidão pertence ao artista e não a quem lhe paga para cantar. O carnaval, na sua beleza profana, hoje é uma coisa de safadões…

Fonte: Redação Tribuna do Norte - Vicente Serejo



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